Portfólio
Ficko: A Poética Urbana e a Ascensão da Pipa como Metáfora Artística
Nascido em Guarulhos, Brasil, e hoje imerso nas paisagens urbanas de São Paulo, Márcio, artisticamente conhecido como Ficko, emerge como uma voz singular no cenário da arte contemporânea. Sua trajetória multidisciplinar, enraizada na espontaneidade do graffiti de rua, expande-se para a fotografia e a pintura em suas diversas expressões, óleo, spray e acrílica, revelando um artista em constante diálogo com o mundo que o cerca.
A busca incessante pelo significado, que outrora pautou sua jornada, transmutou-se, a partir de 2020, em uma profunda percepção do “sentido” que permeia a existência, um marco que redefine sua abordagem criativa e filosófica.
A Pipa: Efemeridade, Dualidade e Resiliência
A construção de uma pipa, um ato que pode consumir minutos ou horas de meticulosa dedicação, culmina em um instante efêmero, quando sua linha é abruptamente cortada. Este objeto, em sua transitoriedade, oferece uma profunda lição sobre as dualidades inerentes à condição humana: o triunfo e a perda, a alegria e a tristeza. Tais contrastes, longe de serem antagônicos, constituem elementos intrínsecos da vida.
No firmamento, entre as linhas que se desprendem, os pipeiros, mestres da arte de empinar, aprendem a modular suas emoções. Em seus jogos, rivalidades e celebrações, os conflitos se dissolvem na dinâmica da brincadeira. Para muitas crianças da periferia, a pipa transcende o mero brinquedo, tornando-se símbolo de liberdade e engenhosidade, perpetuando-se através das gerações.
Historicamente, a pipa precede a era cristã, com registros de sua utilização em diversas culturas e contextos. Pesquisas acadêmicas destacam seu papel como ferramenta em medições atmosféricas, práticas de pesca, cartografia, mediação sociotécnica e até mesmo em teorias relacionadas à construção das pirâmides egípcias.
Como observa Maria de Fátima A. de Queiroz e Melo, do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Psicossocial (LAPIP) da UFSJ:
“Intencionalmente, o homem fez subir aos céus para explorar a força do vento, tendo um papel importante ligado a toda a proto-história das conquistas do espaço aéreo pelo homem. Segundo Latour, construir e brincar com este objeto são ações conectoras e mobilizadoras que produzem impactos significativos enquanto lugar de aprendizagem e desenvolvimento de destrezas diversas nas trocas entre gerações.”
Neste contexto, o termo eolista adquire uma ressonância particular, designando não apenas aquele que possui habilidade na fabricação ou no ato de empinar pipas, mas também o guardião de uma tradição e de um saber ancestral.
A Pesquisa Artística de Ficko: Consciência e Memória Afetiva
A pesquisa de Ficko com as pipas transcende a mera observação, convertendo-se em um potente catalisador para a consciência do presente. Desde a infância, a pipa ocupa um lugar de profunda relevância em sua memória afetiva. Além de empinar, o artista mantém a prática de confeccionar suas próprias pipas, lançando, com frequência, suas “pipas-obras” aos céus. Este ritual, que une o lúdico ao criativo, reflete a íntima conexão do artista com o objeto e sua capacidade de transformar o efêmero em arte.
Embora se inscreva no campo da abstração geométrica, a obra de Ficko se distancia de uma leitura puramente matemática. Suas composições operam como campos simbólicos, onde cada cor e direção carrega uma densidade emocional precisa: o azul, associado à espiritualidade, tende à ascensão; o vermelho, ligado à paixão, ao amor e aos afetos, ancora-se e pulsa. Não se trata de um sistema racional, mas de uma gramática sensível. Em sua prática, a geometria deixa de ser cálculo para tornar-se experiência, um território onde a forma é atravessada pelo sentir e a matemática se converte em emoção, um elo entre o passado, o presente e as infinitas direções que o vento pode levar.
Texto por Anna Sofia Soares
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