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Ficko
Ficko: Entre Céus e Concretudes
Texto por Anna Sofia Soares l Eloarte
De Guarulhos, território periférico que pulsa à margem da grande São Paulo, Ficko, nome artistico, constrói uma trajetória que subverte fronteiras entre a arte urbana e o espaço institucional. Sua obra, nascida do graffiti e lapidada por experiências com a fotografia, o óleo e o spray, encontra na pintura contemporânea uma linguagem autoral, de abstração geométrica marcada por precisão, intensidade cromática e carga emocional latente.
Desde 2020, uma mudança sensível atravessa sua produção. O artista abandona a busca por significados estáticos e mergulha no campo dos sentidos mutantes. A geometria, aqui, não é um cálculo frio, mas um corpo vibrátil. A emoção e o pensamento se organizam em cor e composição. Azul e vermelho compõem uma gramática visual: o primeiro mira os céus símbolo de espiritualidade, expansão, respiro, o vendo, enquanto o segundo ancora-se na carne, evocando instinto, urgência e pulsão de vida.
Na série "Enquanto o Vento Não Chega", a pipa assume o protagonismo simbólico. Não como objeto folclórico ou referência pop, mas como tecnologia ancestral, linguagem periférica e signo universal. A pipa exige do corpo um gesto exato, mas também o abandono ao imprevisível é artefato efêmero e rito de resistência. Ficko a reencena na pintura como metáfora da vida contemporânea: em suspensão, entre controle e entrega, entre céu e chão.
Para o artista, a pipa carrega camadas: memória afetiva, brincadeira de infância, território de disputa e resolução. Nas quebradas, é um brinquedo democrático; um instrumento pedagógico espontâneo que ensina domínio emocional, criatividade e colaboração. Ao transpor esse saber periférico para o campo da arte contemporânea, Ficko atualiza de uma forma emocional o legado de um concretismo no tempo atual, imprimindo nele uma subjetividade sensível.
Suas obras: dípticos, polípticos, composições organizadas sobre fundos brancos ou preto, revelam uma arquitetura interna sofisticada. O branco, longe de ser ausência, funciona como pausa respiratória, silêncio inaugural ou céu em branco à espera do voo. Sobre ele, linhas geométricas se cruzam como trajetórias aéreas, mapas de afetos, narrativas em suspensão. Há método, mas também emoção. Há estrutura, mas há poesia.
Com obras reconhecidas internacionalmente, Ficko já integrou o acervo do Centro Português de Serigrafia, com edições assinadas, e teve trabalhos escolhidos pelo curador Marcelo Dantas, entre outras propostas apresentadas, Ficko foi o destaque para o acervo. Sua pesquisa, ainda que enraizada no cotidiano periférico, não se limita ao local: ela dialoga com questões universais sobre tempo, deslocamento, identidade e transcendência.
Ficko é, acima de tudo, um eolista contemporâneo, aquele que entende a arte como vento e corpo, como direção e desvio. Aos finais de semana, solta pipas no céu com a mesma intenção com que projeta formas sobre a tela: para tensionar os limites do visível e do simbólico. Sua prática é espiritual, uma matemática cheia de emoção. Seu gesto é lírico e político.
Colecionar uma obra de Ficko é alinhar-se a uma poética que desestabiliza certezas e convida ao voo. É experienciar, na superfície da tela, a dança sutil entre rigor e liberdade, entre o gesto que organiza e o vazio que liberta. É, enfim, ver o céu como campo de força estética e a geometria como emoção pulsante.
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